AGNETA: quando o corpo volta a dançar, a vida reaparecel

Enviado por Eli Aguiar 2026-05-27 16:27:25

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AGNETA: quando o corpo volta a dançar, a vida reaparece

Runevad, J. (Direção). (2026). Meu nome é Agneta [Filme]. Netflix.

Assistir Agneta foi, para mim, mais do que acompanhar a história de uma personagem. Foi, em muitos momentos, encontrar a mim mesma em cena. Talvez porque o filme toque justamente em algo que, para quem trabalha com o corpo, se torna quase impossível ignorar: a forma como a vida vai, silenciosamente, se retirando de nós quando perdemos a capacidade de sentir, brincar, imaginar e nos mover.

O que mais me atravessou no filme foi perceber que a transformação da personagem não começa pela palavra. Não começa por uma explicação racional sobre sua dor. Não começa pela análise da sua história. 

Começa pelo movimento.

E isso dialoga profundamente com tudo aquilo que venho estudando e experienciando no campo da psicoterapia corporal, da bioenergética, do tantra e também da psicanálise. Existe algo de muito potente na forma como o filme conduz esse despertar.

Antes mesmo da dança, existe a imaginação.

Há uma cena particularmente simbólica em que Agneta é convidada a fechar os olhos e imaginar a narrativa do outro, visualizar sua história, entrar naquele cenário interno. E isso me parece extremamente significativo, porque antes de colocar o corpo em movimento concreto, o filme convoca primeiro um movimento psíquico.

Primeiro imagina-se.

Depois sente-se.

Depois move-se.

Essa sequência não me parece casual. Ela lembra algo que, na clínica, observamos com frequência: muitas pessoas não perderam apenas a espontaneidade corporal; perderam antes a capacidade de imaginar-se vivendo. Como se o empobrecimento da experiência começasse primeiro no campo simbólico.

E então o filme nos leva ao brincar. O SIM VAMOS! Que minha amiga Caroline Esteca sempre nos convida em seus trabalhos de grupos. 

Aqui me lembrei fortemente de Donald Winnicott, quando fala sobre o brincar como espaço de emergência do self verdadeiro. Porque brincar não é apenas entretenimento; brincar é experimentar a existência com espontaneidade, criatividade e liberdade interna.

Quando alguém perde a capacidade de brincar, talvez esteja também perdendo a capacidade de existir de forma autêntica.

E é exatamente esse movimento que o filme parece restaurar. Não se trata de ensinar passos. Não se trata de performance. Não se trata de dançar “certo”. Trata-se de simplesmente permitir que o corpo se mova. E isso é profundamente libertador.

Porque, em algum momento da vida, muitos de nós aprendemos a acreditar que até para existir precisamos corresponder a uma forma correta. O filme parece romper com isso. Ele nos lembra que dançar é, antes de tudo, movimentar-se com aquilo que a música desperta no corpo.

E aqui não consigo não fazer uma ponte com Alexander Lowen e a bioenergética, especialmente quando ele fala sobre grounding — esse enraizamento que nos devolve presença, sustentação e contato com a realidade.

Porque um corpo desconectado não apenas deixa de se mover. Ele deixa de habitar a própria vida. E talvez seja isso que mais me emociona na narrativa: perceber a passagem de um corpo congelado para um corpo vivo.

Outro aspecto que me atravessou profundamente em Agneta foi perceber que o filme não constrói uma história de amor romântico tradicional. O que se estabelece entre Agneta e Einar é algo talvez ainda mais potente: uma amizade profundamente transformadora. Existe entre eles um encontro humano capaz de devolver movimento, presença e vitalidade. Não há ali a lógica da completude romântica, mas a possibilidade de alguém ser testemunha do retorno do outro para si mesmo.

E é justamente aqui que Martin Buber atravessa fortemente minha leitura do filme. Quando Buber fala sobre a relação “Eu-Tu”, ele nos apresenta a possibilidade de um encontro verdadeiro, no qual o outro não aparece como objeto de uso, expectativa ou função, mas como presença viva. O encontro entre Agneta e Einar desperta nossa atenção justamente para essa alteridade: relações que se aprofundam no amor, no cuidado e no respeito mútuo porque permitem que o outro exista em sua autenticidade.

Quando Einar convida Agneta a narrar e a viver no palco a própria vida, ela tem a oportunidade de testemunhar-se como um ser que sente, que está viva e que já não suporta mais existir no automático. O palco, então, deixa de ser apenas um espaço artístico. Ele se torna símbolo da própria existência. Talvez pela primeira vez, Agneta consegue perceber-se não apenas como alguém que cumpre rotinas, mas como alguém que sente, deseja, sofre, movimenta-se e quer viver para além da anestesia cotidiana.

Mas Agneta também me convocou por outro caminho. O da psicanálise. Especialmente através da construção do personagem Einar, cuja narrativa me fez pensar intensamente sobre perda, delírio e mecanismos psíquicos de sobrevivência.

Recentemente venho mergulhando mais profundamente nos estudos psicanalíticos, e foi impossível não lembrar da segunda tópica freudiana proposta por Sigmund Freud — a dinâmica entre id (isso), ego (eu) e superego. Freud nos mostra que a constituição psíquica se dá numa tensão permanente entre impulsos internos, exigências da realidade e internalizações normativas. Quando essa tensão se torna insuportável, o psiquismo precisa encontrar formas de reorganização.

Na neurose, de forma simplificada, conteúdos pulsionais incompatíveis são recalcados, mas retornam posteriormente sob a forma de sintomas. Na psicose, a ruptura com aspectos da realidade exige uma reorganização subjetiva mais radical. Einar me parece profundamente atravessado por isso. Não porque o filme necessariamente proponha um diagnóstico clínico fechado, mas porque ele encarna algo muito humano: a tentativa de sobreviver psiquicamente a uma dor insuportável.

Seu delírio não aparece como caricatura da loucura. Aparece como tentativa de preservação. E isso é profundamente freudiano. Lembrei-me especialmente do caso Schreber, em que Freud compreende o delírio não apenas como desorganização, mas também como tentativa de reorganização psíquica diante do colapso subjetivo. Há algo dolorosamente humano nisso.

Porque, em alguma medida, todos nós conhecemos a tentação de construir narrativas internas menos dolorosas do que certas realidades que atravessamos. Talvez não em forma delirante, mas em pequenas ficções emocionais que sustentam nossas continuidades.

No fim, Agneta me parece menos um filme sobre dança e mais um filme sobre presença. Sobre o momento em que alguém deixa de apenas sobreviver no automático e volta, ainda que lentamente, a habitar o próprio corpo, a própria história e os próprios afetos.

Talvez seja isso que mais me atravessa no encontro entre Agneta e Einar: a forma como a alteridade, o cuidado e a presença genuína podem despertar alguém para si mesmo. Não através da imposição, mas através do convite. Um convite para sentir. Para imaginar. Para brincar. Para mover-se novamente.

E talvez seja justamente isso que tantas pessoas estejam buscando hoje: não uma versão perfeita de si mesmas, mas a possibilidade de voltar a sentir-se vivas. Por isso, mais do que indicar um filme, sinto vontade de fazer um convite.

Assista Agneta.

Mas, mais do que assistir, permita-se perceber o que o seu corpo desperta enquanto acompanha essa história. Observe seus movimentos internos, seus silêncios, seus congelamentos, suas vontades de dançar, de rir de si mesmo, de respirar, de existir de outro modo.

Porque chega um momento em que já não é mais possível viver apenas no automático. É preciso voltar para o corpo. Voltar para a presença. Voltar para a própria vida.

E talvez, no fim, seja exatamente disso que o filme nos fala: da coragem de existir com autenticidade.

Entregue-se à experiência que seu corpo tem para lhe proporcionar.

 Eli Aguiar | Despertar Corporal

 


Referências

Martin Buber
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001.

Sigmund Freud
FREUD, Sigmund. O ego e o id. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Neurose e psicose. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia (Caso Schreber). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Alexander Lowen
LOWEN, Alexander. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.

LOWEN, Alexander. O corpo em terapia. São Paulo: Summus, 1977.

Wilhelm Reich
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Donald Winnicott
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 


Observação metodológica

Este texto contou com apoio dialógico de inteligência artificial generativa (ChatGPT/OpenAI) como ferramenta auxiliar de organização reflexiva, estruturação textual e interlocução teórica, preservando integralmente a autoria crítica, interpretativa e experiencial da autora.

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