
“Uma voz sem palavras – Como o corpo libera o trauma e restaura o bem-estar”, de Peter A. Levine, é um livro que mostra, com muita sensibilidade e base científica, algo que para nós da terapia corporal é central: o trauma mora primeiro no corpo – e é pelo corpo que ele pode, pouco a pouco, encontrar saída e cura.
Levine é o criador da Experiência Somática (Somatic Experiencing®), um método que nasce da observação dos animais na natureza, da neurociência e de décadas de atendimento clínico. Ele parte de uma ideia simples e poderosa: em situações de ameaça, nosso organismo mobiliza uma enorme energia para lutar, fugir ou congelar; quando essa energia não pode ser descarregada (por exemplo em acidentes, cirurgias, abusos, violências, doenças, anestesias, choques emocionais), ela fica “presa” no sistema nervoso, transformando-se em sintomas físicos e emocionais que podem durar anos.
Ao longo do livro, o autor mostra que o trauma não é apenas um “problema psicológico” ou um “distúrbio cerebral”, mas um estado global do organismo, que envolve corpo, emoções e mente. Ele critica a visão reduzida do trauma como um rótulo diagnóstico (como o TEPT) e o compreende como um ferimento de sobrevivência, ligado aos nossos instintos mais primitivos.
Levine descreve como, depois de um evento potencialmente traumático, muitas pessoas permanecem em alta ativação: coração acelerado, insônia, hipervigilância, medo constante, crises de pânico, sensação de desligamento, depressão, dores crônicas, vergonha e autoacusação. O corpo fica como que “travado” em modos antigos de defesa – congelamento, colapso, desligamento –, mesmo quando o perigo já passou.
O coração do livro é a ideia de que o corpo fala – e que essa voz sem palavras pode nos guiar de volta à vida. Levine mostra, em relatos pessoais (como o acidente em que ele próprio é atropelado) e em casos clínicos, como tremores, arrepios, ondas de calor e frio, micromovimentos espontâneos e mudanças na respiração não são “sinais de fraqueza”, mas parte de um mecanismo natural de descarga que o corpo utiliza para completar reações de luta e fuga interrompidas.
Quando essas respostas instintivas podem acontecer em segurança – na presença de uma pessoa empática, num ambiente terapêutico acolhedor – o sistema nervoso encontra um novo equilíbrio. O autor chama isso de capacidade de autorregulação: a habilidade inata de o organismo se reorganizar, voltar ao eixo e recuperar uma sensação de estar “em casa” em si mesmo.
“Uma voz sem palavras” passeia por diversos campos:
neurofisiologia evolutiva, explicando a hierarquia dos cérebros reptiliano, mamífero e humano;
observação de animais selvagens, que depois de um grande susto tremem e sacodem o corpo antes de voltar à vida normal;
relatos de pacientes que, através da Experiência Somática, conseguem liberar memórias congeladas de acidentes, cirurgias, abusos e violências.
No final, o autor também toca a dimensão espiritual do trauma: para ele, o mesmo sistema que produz estados traumáticos é também o canal de acesso ao bem-estar profundo, à sensação de pertencimento e de conexão com algo maior. O trauma pode ser uma prisão, mas também pode se tornar um portal para um nível mais integrado de consciência e presença.
Para quem chega ao Despertar Corporal buscando compreender seus sintomas, emoções e padrões de relacionamento, esse livro oferece um mapa importante:
Desmistifica o trauma: em vez de rotular a pessoa como “doente”, ele mostra que o trauma é uma resposta natural do corpo a algo que foi demais.
Mostra que não é tarde: mesmo traumas antigos – de infância, cirurgias, partos, acidentes – podem ser tocados e renegociados no corpo, anos depois do evento.
Oferece esperança: o trauma não precisa ser uma “sentença perpétua”; o corpo guarda, junto com a ferida, o caminho da cura.
Ao entrar em contato com as histórias e explicações de Peter Levine, muitas pessoas começam a reconhecer em si sinais de estados pós-traumáticos, como:
sensação de estar sempre “em alerta”, esperando o pior;
dificuldade de relaxar, ou medo de perder o controle se relaxar;
episódios de congelamento, corpo “duro”, mente vazia ou confusa em situações de estresse;
crises de pânico, medos “irracionais” ou fobias que parecem desproporcionais à situação atual;
dores crônicas, enxaquecas, fadiga intensa, sintomas médicos sem explicação clara;
vergonha, autoacusação, sensação de ser “defeituado” ou “quebrado”;
oscilação entre hiperatividade e exaustão, ou entre muita conexão e um desligamento profundo nas relações.
“Uma voz sem palavras” ajuda a entender que esses sinais não são fraqueza, drama nem falta de força de vontade. São mensagens do corpo, pedindo escuta, cuidado e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico especializado – especialmente em abordagens que incluem o corpo como protagonista do processo.
No Despertar Corporal, esse livro é uma das referências que sustentam nossa visão: o corpo sabe o caminho da cura. Quando aprendemos a ouvir essa voz sem palavras, o trauma deixa de ser apenas uma marca de dor e passa a ser também um convite para um novo modo de estar vivo – mais inteiro, mais presente, mais em paz consigo mesmo.
LEVINE, Peter A. Uma voz sem palavras: como o corpo libera o trauma e restaura o bem-estar. Tradução de Carlos Silveira Mendes Rosa; Cláudia Soares Cruz. 1. ed. São Paulo: Summus Editorial, 2012.